domingo, 14 de julho de 2013

Expedição "Do Cantão à Confusão"


Expedição fotográfica realizada pelos membros do Observaves em parceria com a Ecorotas Turismo, entre os dias 01/06 a 07/06, na região centro-oeste do estado do Tocantins, municípios de Caseara, Lagoa da Confusão e Palmas.

Com o apoio e ajuda dos participantes da expedição, os quais serão citados no decorrer desse texto, relatarei nas linhas abaixo "o antes e o durante" dessa empreitada, de forma a registrar alguns dos bons momentos vividos. 


Rio do Coco
Espero também que as imagens e momentos aqui transcritos tragam, a cada leitura, além do sentimento de saudade (para os que participaram), um incentivo e uma motivação a mais aos leitores para que continuemos trilhando por nossas matas, campos e cerrados, ao encontro de nossas maravilhosas aves, as quais nos esperam para serem conhecidas e preservadas.


PLANEJAMENTO (o antes)

A Expedição "Do Cantão à Confusão" começou a ser cogitada ainda em meados de 2012, quando a Ana Rosa Cavalcante, da Ecorotas Turismo, realizou sua primeira viagem à região para passarinhar e levantar as áreas que poderiam ser visitadas em uma futura expedição em grupo. Em Fevereiro de 2013 foi discutido e criado um roteiro com algumas definições preliminares, contendo, por exemplo, número de participantes, duração da expedição, locais a serem visitados, formas de deslocamento, estadias, valor a ser investido por pessoa e outros assuntos envolvendo a logística da viagem. 


Ainda em Fevereiro/2013 a expedição foi divulgada na lista de discussão do Observaves, sendo que, no início de Março, o grupo de 10 pessoas já estava praticamente formado. Daí por diante foram tratados entre os participantes assuntos relativos à viagem como: o que levar (equipamentos, acessórios e itens obrigatórios para esse tipo de viagem) e, principalmente, os preparativos para o objetivo principal da missão: Observar e Fotografar as Aves.

Para isso foi utilizado o site Wikiaves para obter-se a lista das espécies já registradas para as regiões (municípios) a serem visitadas, além dos cantos e chamados das espécies consideradas alvo. A definição das espécies alvo foi feita usando-se alguns critérios e prioridades, como por exemplo, endemismos* da região, suposta facilidade de se encontrar a espécie pelo número de fotos existentes no site Wikiaves, dentre outros. Foi criada assim uma lista de 50 espécies consideradas alvo.

* termo usado para espécies que só ocorrem em regiões específicas ou restritas à geografia ou vegetação predominante no ambiente. Por exemplo, endemismo de cerrado, espécie que só ocorre no bioma cerrado.


A EXPEDIÇÃO (o durante)

Área das curicas próxima ao córrego pratinha
Em 31/05, praticamente todo o grupo já se encontrava reunido em Palmas, ponto de partida do roteiro, o que permitiu uma passarinhada de fim de tarde nas imediações da cidade, sendo o local escolhido a estrada do Pratinha. Com a turma ainda se ambientando ao tempo abafado e forte calor, típicos da cidade, algumas espécies foram bem observadas e fotografadas como o urubuzinho, o macuru-pintado (uma novidade para a maioria), o caneleiro-verde, o sebinho-de-olho-de-ouro e vários bandos de curicas, que nos brindaram com um entardecer bem sonoro durante a passagem dos bandos e revoadas, a partir da mata ciliar que se encontrava a aproximadamente 200 metros à nossa frente. Nossa imersão só estava começando!!!

01/06 - Iniciamos a expedição com o deslocamento de Palmas à cidade de Caseara. Durante a viagem, nosso primeiro imprevisto com a VAN que iria nos acompanhar por toda a viagem. Uma pane elétrica deixou a viagem cerca de 3h mais longa, mas de forma alguma atingiu o bom humor da turma.  O tempo de espera foi bem aproveitado com troca de experiências, dicas sobre equipamentos e muita prosa. O momento também serviu para uma pequena mudança de planos, pois decidimos seguir para nosso destino sem realizar algumas paradas previstas pela estrada e com isso conseguimos chegar a tempo para fazer a primeira incursão, a pé, no Parque Estadual do Cantão. 

Realizamos assim uma caminhada pelas trilhas da bela mata que circunda a sede administrativa do parque, onde foi possível mais observar do que fotografar algumas espécies, como o tangará-falso e o tiê-galo. Além delas, conseguimos ainda observar, na boca da noite, o bacurau-de-cauda-barrada e o araçari-miudinho-de-bico-riscado.

02/06 - Primeiro dia de navegação pelas calmas águas do Rio do Coco. Embarcamos em nossas voadeiras com o dia amanhecendo, curicas transitando pelo céu de lá para cá e a expectativa estampada no rosto de alguns, senão da maioria, para realizar a primeira passarinhada a bordo de uma voadeira (embarcação pequena a motor). 

Final de tarde - Rio do Coco




Foram necessários poucos minutos de navegação para os primeiros avistamentos, tão esperados, de espécies como a cigana, o cardeal-de-goiás, o curió, além de tantas outras, mais abundantes e comuns em ambientes aquáticos, como os martins-pescadores, as garças, os socozinhos e as biguatingas. Realizamos também pequenas incursões em ilhas fluviais com o solo já seco, ou em trilhas conhecidas a partir da margem do rio, sendo possível observar espécies típicas desse ambiente, como a choca-d'água, o pretinho-do-igapó e o endêmico e ameaçado chororó-de-goiás.


03/06 - Segundo dia de navegação a partir do Rio do Coco, com destino ao caudaloso Rio Araguaia e suas praias. Novamente embarcados com o amanhecer do dia e devidamente adaptados ao ritmo das embarcações, barqueiros, e claro, dos passageiros que não dispensavam a oportunidade para fazer uma boa foto (aqui eu me incluo), não podíamos imaginar o que passaríamos com nossas voadeiras. Mas antes de falar sobre o segundo imprevisto da viagem, vale ressaltar os belos avistamentos que fizemos do gavião-pernilongo, do ameaçado jacu-de-barriga-castanha, do pavãozinho-do-pará e da arisca garça-da-mata (essa última observada rapidamente). Além disso, fizemos uma ótima parada para apreciarmos e nos refrescarmos nas mornas águas do Rio Araguaia, onde aproveitamos também para fazer nosso almoço-lanche. Enquanto alguns lanchavam, outros banhavam, houve quem aproveitou para passarinhar, mesmo em trajes de banho, o que resultou em momentos muitos divertidos. 
ferreirinho-estriado - Rodrigo D'Alessandro
Em meio a esses banhos, lanches e passarinhadas, observamos espécies como o pica-pau-de-banda-branca, o arapaçu-de-bico-branco, o ferreirinho-estriado, o amarelinho e a maria-mirim. Ainda no Rio Araguaia, resolvemos parar em uma grande praia pouco depois de avistarmos um casal de pato-corredor


video
Com todo o grupo já desembarcado, alguns se distraindo fotografando alguns indivíduos de cigarrinha-do-campo, veio o aviso do experiente barqueiro "Peninha" de que tínhamos que retornar rapidamente às calmas águas do Rio do Coco, pois uma tempestade, bastante incomum para a época do ano, se formava longe no horizonte e não podíamos arriscar enfrentá-la em pleno Rio Araguaia. Embarcamos novamente um tanto apreensivos, desconfiados, e porque não dizer, resistentes mesmo, tendo em vista que acabávamos de chegar em um lugar belíssimo, com céu apenas parcialmente nublado e as nuvens escuras ainda como uma ameaça distante. 

chuva se aproximando
A chuva chegou, ainda leve, quando ainda navegávamos no Rio Araguaia e pouco depois de adentrarmos o Rio do Coco, ganhou volume, virou chuva torrencial (assista o vídeo) e diminuiu bastante a visibilidade obrigando nossa navegação a pouca velocidade. Terminamos nossa passarinhada mais cedo, encharcados, mas de forma tranquila e com a alma lavada!  

04/06 - Amanhecemos na sede administrativa do Parque Estadual do Cantão, sob muita neblina, para mais uma incursão às trilhas próximas à margem do Rio do Coco. Foram as últimas horas de passarinhada pelo belíssimo Parque, que ainda nos brindou alguns momentos especiais, como a observação do solta-asa e sua maneira peculiar de cantar e o imponente arapaçu-de-bico-comprido.
solta-asa - Rodrigo D'Alessandro

 Ao final, tivemos ainda uma agradável prosa com o Marcus Leão, diretor do Parque, onde ouvimos relatos curiosos sobre o parque e suas belezas e também dos desafios típicos para administrar uma área de preservação em um região de expansão agrícola. À tarde, caímos na estrada novamente rumo à cidade de Lagoa da Confusão, nossa base para os próximos dois dias de passarinhada. Durante o caminho, realizamos paradas estratégicas em algumas pontes e áreas com lagoas próximas a estrada, onde conseguimos observar o bem-te-vizinho-do-brejo e a ariramba-preta, sendo essa última, mais uma espécie alvo de nossa lista. Em nossa última parada, próxima à ponte do Rio Pium, encontramos um bando de tucanos-de-bico-preto em uma árvore apinhada de frutos vermelhos. Cenário perfeito para ótimas fotos. Com o avançar da tarde, desejamos seguir viagem, mas veio então um novo imprevisto com a nossa VAN: a mesma pane elétrica de alguns dias atrás. 
Choca-barrada (fêmea) - Bertrando Campos

Com o mesmo bom humor e disposição dos dias anteriores, alguns voltaram a passarinhar, outros descansaram e houve até disposição para acendermos uma fogueira para afugentar o frio e as muriçocas. Com a VAN parcialmente consertada, fomos escoltados à nossa base para mais um merecido descanso.


Lagoa da Confusão
05/06 - Apreciamos mais um belo amanhecer à beira da lagoa que dá nome à cidade e seguimos rumo a Faz. Praia Alta, onde fizemos uma busca, sem sucesso, pelo João-do-Araguaia, mais uma espécie alvo de nossa lista. 

De lá percorremos diversas estradinhas que entremeiam as lavouras de soja e arroz irrigado, em busca de espécies que ainda se aproveitam desses ambientes, completamente modificados, mas que podem oferecer alimentação abundante principalmente nas áreas alagadas próximas aos canais artificiais. Encontramos assim socós, tuiuiús  garças e saracuras. No meio das lavouras conseguimos observar alguns veados-campeiros pastando e também cobras, muitas cobras. 


Mas o ponto alto do dia foi, certamente, o enorme bando com dezenas de marrecas asa-branca pousadas à beira de uma lagoa. Em meio ao bando foi possível observar ainda gaviões-caramujeiros, o carão e anhumas. Uma pequena ave fotografada, muito parecida com um curutié, mas cuja identificação gerou controvérsias e falta de consenso pode ser considerada uma espécie "nova" (do gênero Certhiaxis), possivelmente endêmica da região, mas que ainda está sendo descrita e estudada pelos ornitólogos. Uma das fotos foi postada no site Wikiaves (http://www.wikiaves.com/983528) para confirmação futura dessa hipótese.


06/06 - Penúltimo dia da expedição e objetivo era claro: observar o raro e ameaçado pica-pau-do-parnaíba! Essa espécie já tinha sido registrada na região em um local conhecido como Ipuca-da-onça. Chegamos cedo ao local e demos muita sorte, pois em poucos minutos um indivíduo respondeu ao chamado reproduzido por play-back. Algum tempo depois percebemos a presença de mais um ou dois indivíduos, todos muito ariscos, e que não permitiram qualquer aproximação ou visão privilegiada para uma boa foto. 
papa-formiga-pardo - Rodrigo D'Alessandro
De qualquer forma, com a missão cumprida ainda cedo, a passarinhada continuou e observamos outras tantas espécies como o papa-formiga-pardo, o surucuá-de-cauda-preta, curicacas,  a gralha cancã e o anambé-branco-de-máscara-negra. Ao final da tarde, já em Palmas, fizemos nova visita à estrada do Pratinha. O reencontro com as curicas foi igualmente agradável!

07/06 - Visitamos pela manhã o Parque Estadual do Lageado, distante cerca de 25km de Palmas. Guiados por Marcelo Barbosa, percorremos uma trilha em meio ao cerrado típico, com transições entre cerrado stricto-sensu, cerradão, e mata de galeria. Com as ventanias típicas do início de inverno na região nossa observação se "restringiu" a cerca de 30 espécies, dentre elas o joão-bobo, a choca-do-planalto e o caburé. Essa foi a última passarinhada da expedição, já que a tarde estava destinada à viagem de retorno à Brasília e demais cidades.
joão-bobo - Rose Almeida
Em nome dos 10 participantes da Expedição "Do Cantão à Confusão", citados a seguir, e considerando que o grupo, em determinados momentos, chegou a ter 15 pessoas, se somadas as pessoas que apoiaram, contribuíram e trabalharam para que tudo caminhasse como planejado ou da melhor forma possível, registro aqui a gratidão e o orgulho de ter participado dessa aula prática de convivência e civilidade, de imersão ao mundo das aves, de conhecimento e respeito à Natureza.

Agradecemos ainda o Leonardo Azevedo (Ecoturismo CCTrekking Adventure) e equipe por toda a atenção e o apoio logístico prestado durante a expedição, o Neto, que conduziu com tranquilidade e segurança nossa van por toda a viagem e os proprietários da Faz. Praia Alta, em especial ao Eduardo Bernardon, por ter nos levado ao encontro do pica-pau-do parnaíba. 

Participantes da Expedição "Do Cantão à Confusão". 

Ana Rosa Cavalcante
Bertrando Campos
Damião Alves de Azevedo
Eduardo Fernandes
Enzo Corazolla
Havita Rigamonti
Herbert Schubart
Rodrigo D'Alessandro Alves
Roseanne Almeida
Tancredo Maia Filho

Cerca de 30 espécies alvo foram registradas e ao todo foram mais de 180 espécies de aves observadas durante a expedição.

Clique aqui para obter a lista completa das espécies registradas.

Outros links sobre a expedição:
Blog de Haviga Rigamonti
Vídeo de Ana Rosa Cavalcante e Enzo Corazolla


Veja mais mais fotos da expedição:

Expedição "Do Cantão à Confusão"

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